sábado, 5 de abril de 2025

FICÇÃO - "ÉPOCA DE CAÇA" (Parte I) [M2601 - 25/2025 ]


Nota prévia: Este conto é obra de ficção e foi escrito em 2013. Qualquer semelhança com factos, pessoas ou situações é mera coincidência.


Algures sobre o Ártico

- Temos dois bandidos, direção 1-1-7. Confirme Açor Um.
- Açor Um confirma. Comando confirma vetor de interceção?
- Confirmado. Não tome medidas hostis, apenas os faça dar meia-volta. 
- Deve ser fácil, Comando. Açor Um terminado. 
O Tenente Paulo “Wanderer” Rocha observou o caça diante de si durante a curta troca de palavras. Ele era o Açor Dois naquela missão pelo que era o Capitão Diogo “Spark” Pires quem dava as ordens, ele próprio sendo instruído pelo controlo de missão em Helsínquia. 
Não que a cadeia de comando incomodasse Paulo de algum modo, ao contrário do que sucedia com o facto de estar ali a voar com aquele capitão, uma nódoa da Força Aérea Portuguesa na sua opinião. Ordens eram ordens e o planeamento de missão assim o determinava, mas não era obrigado a gostar da situação. Foi com descontentamento que ouviu a voz de Pires a dirigir-se-lhe no canal de comunicação. 
- Rocha, segue na minha cauda e não me largues. Nada de números de circo desta vez. 
- Nada de acrobacias, certo. 
- Falo a sério, tenente! 
- Certo, capitão. Açor Dois confirma. 
- Entendido. Mete a pós-combustão e vamos ver quem veio brincar hoje. 
Paulo viu a chama vermelha na cauda do avião diante de si, sinal da injeção direta de combustível na tubeira de escape do motor de jacto. Pires ativara a pós-combustão e ia entrar em velocidade supersónica. Sem perder tempo Paulo imitou o capitão. Os dois caças aceleraram sob o céu escuro e estrelado do Ártico. 
Não difícil adivinhar quem teriam pela frente. Russos, certamente, fazendo mais algum voo sobre o espaço aéreo da OTAN, esperando aborrecer alguém em Bruxelas. Desde que a Rússia havia vindo a fortificar o seu poderio militar e influência política ao longo dos últimos vinte anos que aquelas intercepções se tornavam cada vez mais comuns. Pelo menos, Paulo tinha a certeza de que iriam conseguir lidar com o que quer que encontrassem. 
As elegantes formas em delta que ambos os pilotos portugueses faziam deslizar nos ares eram Saab JAS-39E Gripen, caças ligeiros de fabrico sueco, dos melhores do mundo. A Força Aérea Portuguesa conseguia pôr as mãos em quatro daqueles pássaros de metal através dos acordos que Lisboa tinha com a empresa Embraer do Brasil, que colaborava com a Saab no seu fabrico. Desejoso de os testar o governo português colocara-os numa das missões da OTAN para patrulha do espaço aéreo islandês, vitais uma vez que a Islândia não possuía força aérea própria. 
Sabendo que tinha um caça poderoso nas suas mãos, bastante superior ao F-16AM que pilotara durante a maior parte da sua carreira, Paulo sentia-se confiante. Contudo algo o incomodava por dentro. Algo que o levara a alistar-se na Força Aérea e que o movera durante a desilusão que fora a maior parte da sua vida militar. Algo que veio ao de cima assim que ele e o capitão viram os dois caças russos, silhuetas negras contra o nascer do Sol. 
- Estou a ver os bandidos, Comando. – Sinalizou Pires – Creio que são dois Flanker-D. Vou-me aproximar para confirmar. 
- Afirmativo Açor Um. Prossiga com cautela. 
Pires falou então diretamente para Paulo. 
- Estão-nos a varrer com os radares. Fica alerta. 
- Já reparei. – Como podia ele ignorar os avisos sonoros que despontavam pelos auscultadores e as miríades de luzes de alerta que iluminavam o painel de comando? Felizmente que os russos só deviam estar ali para incomodar, senão já os teriam riscado do céu há muito. Claro que não eram apenas os russos quem fazia ameaças silenciosas ali uma vez que também os portugueses os varriam com os seus próprios radares. 
Os dois Gripen enfeitados com a cruz de Cristo descreveram um arco, primeiro para sul e depois para leste, de modo a intercetarem os caças russos. Eles não mudaram de rota, permitindo que os portugueses se aproximassem por trás e por cima. Olhando para lá da sua ampla carlinga transparente Paulo observou bem os bandidos. Estavam a cerca de mil metros de distância, duzentos metros abaixo dos Gripen. 
Eram grandes para caças, cada um deles com duas enormes empenagens verticais ornamentadas com estrelas vermelhas, ladeando dois poderosos motores a jacto. Tinham asas largas, de flecha acentuada, e suaves linhas aerodinâmicas. As aletas dos lados do nariz e as carlingas curtas não davam espaço para dúvidas. Eram dois Sukhoi Su-33 Flanker-D, caças navais russos de longo alcance. 
Os dois pares de caças mantiveram as suas posições, aceitando calmamente a presença uns dos outros. 
- Vou entrar em contacto com eles. Mantém a tua posição, Rocha. 
- Afirmativo. – Paulo inspirou fundo. A cada instante que passava a sua vontade tornava-se cada vez mais forte. Pensou se não seria daquela vez que cumpriria o seu sonho de finalmente vencer num verdadeiro duelo sobre os céus, homem contra homem em velozes máquinas de guerra. Por isso se tornara piloto de combate. Mais uma vez a sua oportunidade seria roubada pelas burocracias da realidade. Ele sabia que os russos queriam testar os aviadores ocidentais, ver o quão nervosos eram realmente. Mas ainda assim... 
- Daqui Açor Um comunicando com caças não-identificados, por favor respondam. – Não houve nenhuma resposta, falada ou visual, por parte dos bandidos, que simplesmente seguiam em frente. Provavelmente também não teriam grande simpatia pelo Pires. – Rocha. Vou colocar-me ao lado deles. Mantém a tua posição.
O Gripen deslizou suavemente sobre o impulso do seu poderoso motor a jacto, colocando-se a par com o caça que liderava a formação russa. Da sua posição privilegiada, Paulo conseguia observar o quão pequeno e frágil o caça sueco parecia junto da enorme máquina russa. Pires voltou a tentar.
- Daqui Açor Um comunicando com caças não-identificados, desçam os trens de aterragem se me conseguem ouvir. – O pedido era tão visualmente óbvio como útil, uma vez que descer o trem de aterragem normalmente desligava os sistemas de armas das aeronaves. Obedecer demonstraria que os russos não tinham intenções hostis. Pires repetiu o pedido. A falta de resposta dos bandidos estava a deixá-lo nervoso. Paulo apertou com mais força o comando da velocidade. Numa ocasião semelhante, uma semana antes, havia descido sobre os caças russos para os espevitar, o que lhe valera uma reprimenda. Mas não podia voltar a fazer asneiras. Não hoje… 

(Continua)


Texto: ©Francisco Duarte
Edição: Pássaro de Ferro

2 Comentários:

Anónimo disse...

hummm, conto de intrudução ao gripen na FaP?

Anónimo disse...

Looby Looby lLooby.....

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